23/03/2011

Foto: Rodrigo Vilaça

TJ discute arte popular

O que leva uma pesquisadora brasileira ao exterior para estudar arte popular do seu próprio país? A resposta está relacionada à tese de doutorado em Antropologia da professora da Escola de Belas Artes da UFMG, Marilene Corrêa Maia, defendida em 2009 na Université Paris X – Nanterre, na França, com o tema “As obras de arte popular no Museu de Folclore Edison Carneiro – entre pesquisa, museu e mercado”. O estudo foi apresentado na última quinta-feira, 15 de março, na palestra “O Museu no percurso de um objeto”, dentro do Circuito de Seminários promovido pela Memória do Judiciário Mineiro (Mejud), com o apoio da Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes (Ejef) do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). O evento é realizado mensalmente em parceria com o Grupo de pesquisas e estudos em Museologia – Arte – Estética na Tecnologia, Educação e Ciência (MUSAETEC-UFMG/ECI).

Marilene Maia, professora na área de conservação-restauração de bens culturais móveis, contou inicialmente que sua tese permitiu-lhe refletir sobre a relação entre o objeto e a existência humana. “A Antropologia me aproximou dessas questões”, observou. Para ela, o doutorado ajudou a entender as razões que levam um profissional da área a preservar um objeto. Ponderou que, após a restauração, “o objeto vai continuar a ter uma vida em diferentes situações sociais, mas não vai ter a mesma leitura, a mesma representação e o mesmo valor financeiro, emocional e cultural”.

Como ambiente de pesquisa da tese, Marilene Maia escolheu o Museu de Folclore Edison Carneiro do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), no Rio de Janeiro, que aceitou a proposta de participar do estudo. “Para minha felicidade, fui a primeira doutoranda a estudar a coleção do Museu”, enfatizou. A ideia de trabalhar com arte popular surgiu bem antes do doutorado. Anteriormente, ela já havia feito um estágio no Museu Nacional de Artes e Tradições Populares em Paris, por conta de seu mestrado em Artes Visuais pela UFMG, que discutiu “A importância dos inventários na conservação de coleções de museus”. “Precisei sair do Brasil para me interessar por arte popular brasileira”, comentou.

Na Europa, conheceu sua futura orientadora, a professora e antropóloga Martine Segalen, que trabalhara com Georges-Henri Rivière, referência internacional em Museologia. “Ele implantou naquele museu um verdadeiro laboratório e apresentou um modelo museográfico inovador”, disse. De volta ao Brasil, trouxe o contato com Segalen para um doutorado naquele país. “Em Paris, fiz um longo percurso dentro da Antropologia para definição da metodologia de trabalho da pesquisa. Além disso, participei de uma serie de debates relativos à problemática da conservação e exposição de objetos em museus. Decidi trabalhar a arte popular nos diferentes espaços internos do museu bem como seguir o percurso desses objetos extra-muros”, afirmou a professora.

Folcloristas

No Brasil, o ponto de partida da pesquisa foi a sala de Arte do projeto museográfico do Museu de Folclore Edison Carneiro, onde Marilene Maia disse ter encontrado um sólido processo de valorização da cultura popular. “Era preciso compreender porque aqueles objetos estavam ali”, disse. Segundo a professora, o CNFCP foi fundado, como resultado de um movimento de folcloristas desencadeado pelo poeta Mário de Andrade. “O Centro é referência em pesquisa na área de cultura popular. Meus estudos basearam-se em parte na análise da presença do objeto arte popular em diferentes espaços internos do museu, tais como reserva técnica, sala de exposição e divulgação”, acrescentou.

Marilene Maia revelou que sua pesquisa, numa perspectiva histórica, foi fundamentada nos resultados da Missão de Pesquisas Folclóricas realizada em 1938 pelo Norte e Nordeste do Brasil, por iniciativa de Mário de Andrade. Nessas viagens, a equipe reuniu uma coleção de material audiovisual das manifestações folclóricas em face da crescente urbanização do país à época. “É um olhar diferenciado sobre o objeto que o transformou no que é arte popular hoje”, avalia a professora, para quem a Missão fez história na Antropologia cultural brasileira.

A professora percebeu que, pelo esforço de pesquisas e atividades de folcloristas brasileiros nos anos 40 e 50, o espaço de objetos até então considerados banais começa a ser modificado. Como explicou, ao passarem a ser expostos em grandes centros e fazer parte até de coleções particulares, eles alcançam outro status, “adquirindo aos poucos um grau de expressão artística singular”.

Espaços

Durante a apresentação visual de sua palestra, a professora mostrou imagens do espaço museográfico do Museu de Folclore Edison Carneiro, que se divide em seis seções: Vida, Técnica, Arte, Religião, Festa e Arte. Lembrou que este projeto foi desenvolvido pela antropóloga carioca Lélia Coelho Frota, reconhecida pelos estudos e valorização da arte e da cultura popular brasileiras.

A palestrante dedicou especial atenção à seção Arte, onde, segundo ela, as peças estão expostas como expressão artística. “Reúne parte de excelência da coleção”, esclareceu, citando artistas renomados como Mestre Vitalino, Maria de Beni e G.T.O.

Mercado

Na sua pesquisa de campo no Brasil, a professora percorreu diferentes ambientes de exposição de arte popular, dos mais simples aos mais sofisticados. Entrou em contato com trabalhos de variados níveis de qualidade: de artesãos comuns a artistas consagrados, a exemplo de Dona Isabel, artesã de Santana do Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, cujas bonecas de cerâmica já alcançaram fama internacional.

De acordo com Marilene Maia, a variação de preço dessas obras no mercado de artes é muito grande. “As bonecas de Dona Isabel hoje são caríssimas”, exemplificou, lembrando que a artesã recebeu recentemente um prêmio latino-americano de artesanato concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Ações sociais

Segundo a professora, o Museu é um centro de pesquisa que participa de uma série de ações sociais ligadas à valorização do folclore e da cultura popular. Essa política, no seu entendimento, provoca um impacto na coleção do museu, cujo acervo está em constante renovação. O Programa Artesanato Solidário, desenvolvido em Santana do Araçuaí, foi uma das ações apresentadas por Marilene Maia: “O projeto trouxe uma valorização dos artesãos da região e uma evolução na qualidade das peças produzidas”, informou. Para ela, o objeto de arte popular é influenciado por esta valorização.

Marilene Maia explicou que a Sala do Artista Popular é um espaço extremamente dinâmico, funcionando como galeria de arte e também espaço de vendas. Como disse, o local é freqüentado por colecionadores, críticos de arte e marchands. Ela só lamenta que, apesar da riqueza cultural do Museu de Folclore Edison Carneiro, esse ainda é pouco conhecido do público brasileiro.

Opiniões

Falando para um público formado por profissionais da área e servidores do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais (TJMG) interessados no tema, a professora agradeceu a oportunidade de participar do Circuito de Seminários e justificou o atraso no atendimento ao convite, em função de alguns compromissos pessoais. Os participantes, que lotaram uma das salas de estudos da Ejef elogiaram o conteúdo da palestra.

Formada em designer de interiores, a servidora Elza Regina de Villeroy, lotada na Administração do Fórum Lafayette, em Belo Horizonte, explicou o motivo de sua participação na palestra: “Tenho muito interesse em temas ligados à história da arte e museus. Futuramente pretendo cursar uma pós-graduação nessa área”.

O estudante de restauração da UFMG Ramon Vieira destacou a oportunidade de se abrir um espaço de debate com profissionais experientes. “A partir daí é que surgem as novas propostas sobre museografia”, avaliou.

Já a professora de História da Arte e Educação Patrimonial Sandra Matias Farias, que atualmente estuda sobre museus na América Latina, considerou a parte da palestra sobre modelo museográfico de seu maior interesse. “Ninguém produz sozinho. A troca de conhecimentos enriquece a produção intelectual”, completou.

Palestrante no Circuito de Seminários no ano passado, a professora de Arte e Educação Patrimonial no Cefet-MG, Carmen Lúcia de Mattos, elogiou a profundidade como a professora Marilene Maia discutiu sobre arte popular e seus principais representantes no Brasil. “Um trabalho enriquecedor”, resumiu.

Outras Notícias