07/07/2011

Foto: Marcelo Albert

Palestra da Mejud tematiza colecionismo

Na última terça-feira, 5 de julho, a Memória do Judiciário Mineiro (Mejud), promoveu, no auditório da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (ECI-UFMG), a palestra “O colecionador e o cinema: arquivos pessoais enquanto fonte de informação e pesquisa”, ministrada pelo professor Alessandro Ferreira Costa. O evento foi realizado em parceria com o Grupo de Pesquisas e Estudos em Museologia, Arte e Estética na Tecnologia, Educação e Ciência da ECI-UFMG (MUSAETEC).

Na palestra, Alessandro Costa, mestre em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes (EBA-UFMG) e doutor em Ciência da Informação, falou sobre o surgimento do cinema e sobre a importância dos arquivos pessoais na formação de acervos cinematográficos. O professor, ele mesmo colecionador e aficcionado pelo que denominou “o universo complexo, mágico e poético das imagens sonoras em movimento”, afirmou que a prática de reunir objetos significativos é inerente ao ser humano, mas diferenciou comportamentos patológicos dos hábitos de colecionismo.

“É frequente confundir o colecionador e o acumulador; ambas as figuras são, às vezes, estigmatizadas. O acumulador pode variar daquele que, por apego, guarda objetos para os quais nem tem uso, apenas porque teme precisar deles, até casos mais doentios, em que a pessoa coleta tudo o que vê pelo caminho, chegando, em alguns casos, a não dispor de espaço para si mesmo em sua própria casa. Já o colecionador pressupõe uma atitude crítica, seletiva e sistemática. Ele junta dados, dispondo-os em ordem e organizando-os. Sua coleção acaba sendo um retrato de sua personalidade”, esclarece.

Costa considera que as coleções são fontes de informações riquíssimas, mesmo que sua utilidade não seja evidente de imediato. Para o pesquisador, o compromisso do estudioso de museologia, conservação, restauração e áreas afins é salvaguardar esses materiais para o futuro. “No caso do cinema, 70% da produção nacional se perdeu e só os cartazes que restaram comprovam a existência de alguns filmes. Além disso, na era tecnológica, os produtos audiovisuais se tornam inacessíveis muito rapidamente, seja pela obsolescência de software, seja pela de hardware”.

Cinema, memória e pesquisa

Alessandro Costa enfatizou que todo colecionador é um pesquisador nato, porque tem a preocupação de recuperar dados relativos a algo a qualquer momento posterior à sua aquisição. Em geral, ele também conhece outros colecionadores e se empenha em oferecer aos objetos condições ótimas de acondicionamento, para evitar a destruição. “Costumo dizer que é alguém que tem consciência da própria relevância no mundo, um gestor apaixonado de sua própria história”, pondera.

O palestrante abordou os primórdios do cinema, o qual derivou não só da fotografia, mas do teatro de sombras e de brinquedos óticos, apesar dos nomes assustadores, familiares a todos nós: o taumatrópio, o fenaquistoscópio, o zoetrópio e o flipbook. “Só foi possível conhecer o desenvolvimento da sétima arte a partir do resgate de acervos pessoais. Por alguém achar que esses jogos tinham de ser preservados sabemos hoje sobre o nosso passado”, argumenta.

Refletindo sobre as razões que levam o espectador a encantar-se com o cinema, Costa exibiu trechos de filmes, entre eles obras pioneiras como as dos irmãos Lumière e Georges Méliès, passando por vídeos de amadores e de realizadores como Helvécio Ratton. Comentando produções grandiosas como Avatar, do canadense James Cameron, o estudioso mostrou que experiências bem anteriores foram decisivas para se atingir patamares assim de excelência técnica.

Segundo Alessandro Costa, o colecionador de cinema busca não apenas películas e rolos, mas pôsteres, figurinos, costume designs, objetos de cena, acessórios, roteiros, publicações especializadas: “As maiores cinematecas do mundo compõem-se de arquivos pessoais doados por colecionadores, investigadores qualificados que se servem de critérios rigorosos de seleção, organização e sistematização de materiais”.

O professor fez um apelo para que tentemos preservar a história, pois a informação não é útil se não puder ser localizada na oportunidade em que é necessária. “Não há nada pior do que pensar: ‘eu já li isso em algum lugar’ e não lembrar onde. Guardem o que é representativo para vocês, de preferência organizando este acervo, pois ele é a transfiguração do nosso ser para a materialidade”. Costa também manifestou, involuntariamente, um traço dos colecionadores: a possessividade e o ciúme em relação a seus pertences. “Pensei em trazer um dos meus automóveis em miniatura para vocês verem. Mas ele pediu para ficar em casa, na estante”, concluiu, em meio aos risos da plateia.

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