29/09/2016

Foto: Mejud

Oficina-paleografia-MEJUD

Ler fluentemente e transcrever fontes manuscritas de séculos passados, que não são acessíveis ao leitor comum. Esse foi o objetivo da oficina de paleografia ministrada na Memória do Judiciário Mineiro (Mejud) do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais (TJMG) no último dia 20, pelo Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O curso fez parte da programação da 10ª Primavera dos Museus, evento nacional que contou com a participação da Mejud e de 753 instituições brasileiras, sob a coordenação do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

“A Paleografia, como ciência multidisciplinar, contribui para a História e dialoga com Linguística, Arquivologia e Museologia”, esclareceu a mestre em História Social pela UFMG e coordenadora da oficina, Fabiana Léo. “O Brasil carece de formação técnica nessa área. Os paleógrafos atuantes têm, em muitos casos, formação autodidata”, disse, ressaltando que existe uma grande demanda para esse curso.

Segundo a coordenadora, o traçado da letra, tecnicamente definido como ductus, dependia do suporte sobre o qual ela havia sido desenhada, que podia ser pedra, pergaminho, papiro, papel ou outro material qualquer, e do material utilizado para a escrita, como cinzel, pena, lápis caneta etc.

Além disso, explicou a coordenadora, o ambiente de produção do texto também afetava o traçado da letra. “Um documento produzido com objetivo ornamental, sem nenhuma pressa, era diferente daquele feito em um cartório ou tribunal, cujo registro escrito tinha que acompanhar a velocidade da fala. As necessidades do escrivão e o seu nível de formação também se refletiam na letra”, exemplificou.

Truques

Na etapa inicial da Oficina, realizada nas dependências da Mejud no Palácio da Justiça Rodrigues Campos, Fabiana Léo apresentou uma breve descrição da história da escrita e as características evolutivas das letras desde o Império Romano. Ela falou do surgimento e disseminação dos primeiros manuais de caligrafia e citou os conceitos básicos sobre a disciplina. Ressaltou, contudo, que o foco do curso é o estudo da Paleografia Portuguesa Moderna.

Os alunos aprenderam “truques” para leitura de manuscritos antigos, buscando contornar as dificuldades de identificação dos caracteres e superar as perdas ocasionadas pela má conservação do material, como rasgaduras e tintas ilegíveis. A primeira dica ensinada foi comparar palavras desconhecidas com outras decifradas anteriormente, tentando identificar caracteres semelhantes. A segunda, reconstruir com o dedo ou com a ponta do lápis o traçado da letra. Nesse caso, o movimento imaginário ajuda a decifrar outras partes do texto.

A coordenadora disse, ainda, que, na impossibilidade de identificação da palavra, o técnico deve inserir colchetes nos trechos duvidosos. Finalmente, orientou os aprendizes a analisar o contexto em que a palavra estava inserida e recorrer a dicionários paleográficos de abreviaturas e de vocábulos.

Como exercício prático, os alunos interpretaram um documento relativo a uma consulta do Conselho Ultramarino, datado de 1720, para definir o governador da Capitania de Minas Gerais. A apresentação da Oficina contou com a participação dos mestrandos de História da UFMG Regis Quintão e Ludmila Torres e reuniu servidores da Mejud e universitários de Belo Horizonte de História e Letras.

Projeto

A Oficina de Paleografia é um projeto discente voluntário fundado no 1º semestre de 2012 por alunos e egressos da graduação e pós-graduação do Departamento de História da UFMG, que não identificaram a oferta regular da disciplina de leitura paleográfica em nenhum curso em Minas Gerais. A iniciativa pioneira em Belo Horizonte ajudou a criar cursos semelhantes em Ouro Preto, São João del-Rei e Juiz de Fora. Instituições de outros estados brasileiros também planejam criar oficinas baseadas na experiência mineira.

O curso é oferecido semestralmente, com carga horária de 30 horas-aula, divididas em teoria, atividades práticas de leitura e conferências ministradas por historiadores e pesquisadores. As aulas são realizadas às segundas-feiras, de 17h15 às 18h55, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), no Campus Pampulha.

As inscrições são gratuitas, abertas a estudantes ou profissionais provenientes de quaisquer instituições e podem ser feitas pelo site. Outras informações pelo facebook.com/oficina de paleografia ou pelo correio eletrônico oppufmg@gmail.com. O grupo lançou a primeira edição dos Cadernos de Paleografia (2012/2013), disponível gratuitamente no formato e-book no site da Oficina.

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