17/05/2019

Imagens: Mejud

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A oficina foi realizada no mezanino do Salão Nobre do Palácio da Justiça

Do formal ao lúdico. Assim, a folclórica história do cavalo Melado, redigida em versos em um processo julgado na comarca de Manga, atraiu ainda mais a atenção dos adolescentes trabalhadores da Associação Profissionalizante do Menor de Belo Horizonte (Assprom) para a oficina promovida pela Memória do Judiciário Mineiro (Mejud) do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais (TJMG). O evento, realizado no dia 15/05, fez parte das comemorações da 17ª Semana Nacional dos Museus e abordou as transformações da escrita ao longo dos séculos.

O fato envolvendo Melado ocorreu em 1992. Segundo os autos, o animal invadiu a propriedade vizinha, causando danos à plantação de milho. O proprietário, inconformado, resolveu manter o intruso em sua propriedade para se ressarcir dos prejuízos. O cavalo só foi solto e devolvido à sua dona após a intimação judicial. Seria apenas mais uma ação de menor gravidade na Justiça, não fossem os textos datilografadas em versos na petição e na decisão do magistrado. Pela sua singularidade, o processo integra a coleção de documentos da Mejud.

Divididos em grupos na oficina, realizada no mezanino do Salão Nobre do Palácio da Justiça Rodrigues Campos, os jovens tiveram que criar uma história sobre o julgamento do cavalo. As duas coordenadoras acompanhantes dos trabalhadores mirins também participaram. Para a redação dos textos, foram utilizadas antigas máquinas de datilografia. A princípio, uma experiência curiosa e desajeitada, que logo se tornou divertida e instrutiva. Criados na era digital dos computadores e smartphones, o manuseio de equipamentos inventados há mais de cem anos exigiu deles um breve período de treinamento. As máquinas foram doadas à Mejud por um cartório do TJMG.

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Os adolescentes da Assprom redigiram os textos em antigas máquinas de datilografia

Segundo a monitora da Mejud Josiane Freitas, com base na temática da Semana Nacional dos Museus, coordenada pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e que, em 2019, discute o papel dos museus como núcleos culturais e suas tradições, o TJMG escolheu o título A experimentação da escrevedura: uma imersão nas transformações da escrita. “O objetivo foi levar os alunos a experimentar as tradições dos suportes da escrita”, explicou.

Nas orientações preliminares, foi lembrado que o processo de escrita passou por diversas transformações tecnológicas desde os primórdios da humanidade. Como explicou a monitora estagiária de Conservação e Restauração de Bens Culturais e Moveis Luise Soares, com base em uma pesquisa histórica e na disponibilidade do acervo da Mejud, foram selecionadas a máquina de escrever e a caneta-tinteiro como exemplos de equipamentos que contam um pouco da trajetória da escrita no TJMG. “Muitos desse objetos pertenceram a magistrados”, disse. Integraram a equipe de monitores da Mejud os estagiários de História Taynara Areal e Lucas Gabriel Dias e de Museologia Silvia Amarante.

Melado

Mas que fim teve o cavalo Melado na imaginação dos participantes da oficina? Também, em versos, um grupo datilografou: “Que o Melado não é gente, e não deve ser julgado, que o animal seja solto, para ajudar no arado, assim fica dito e sentenciado, que o Melado não é santo mas, também não é malvado, ele apenas seguiu os instintos, ao destruir o seu roçado, e por isto deverá ser inocentado.”

Para outro grupo, o destino foi mais cruel com o pobre animal: “A sentença então chegou, e dona Lurdes triste ficou, Melado destruiu a propriedade do senhor, e assim o milho acabou, ficou decidido então que, Melado ia voltar, mas doente se encontrou, foi tanto milho que comeu, que Melado faleceu, arquivado foi o caso, com um fim devastador, todos saíram perdendo, nessa história do interior.”

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As atividades incluíram a produção de canetas bico de pena com palitos e canudinhos plásticos

Caneta bico de pena

Na segunda atividade prática da oficina, os monitores ensinaram as técnicas de reprodução de canetas bico de pena com materiais caseiros. Esse objeto é uma das invenções mais antigas conhecidas na escrita. Foram utilizados palitos de churrasco e canudinhos plásticos na construção da peça e tinta nanquim para a impressão dos textos. Como exercício final, os participantes fizeram marcadores de páginas de livros com a inicial do nome da cada um, escrita com a caneta artesanal.

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Com o uso das canetas artesanais os jovens desenvolveram marcadores de livros com as iniciais dos próprios nomes

Opiniões

Ao final dos trabalhos, houve o reconhecimento da qualidade da programação da 17ª Semana Nacional dos Museus por parte dos adolescentes da Assprom. A estudante Gabriela Rodrigues, 18 anos, lotada no Hospital Santa Maria, elogiou o formato descontraído da oficina. “Apesar de ser um tema que envolve muito o formal, eles nos ensinaram de forma bem lúdica sobre a história da escrita”, disse.

Lucas Aendew de Almeida, 17 anos, que atua no Clube de Oficiais da Polícia Militar de Minas Gerais (COPM), destacou a história sobre o cavalo Melado. “Foi muito legal”.

Já Patrick Fernandes da Silva, 18 anos, jovem trabalhador na Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte (Urbel), aprovou a visita ao TJMG: “Não tinha ideia dessas coisas que aconteciam antigamente. Gostei muito das oficinas”, disse.

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Os participantes aprovaram a oficina sobre a evolução da escrita

Conhecendo o Judiciário

Antecedendo à oficina da Mejud, os visitantes da Assprom assistiram ao Conhecendo o Judiciário, programa institucional do TJMG, promovido pela Assessoria de Comunicação Institucional (Ascom), em parceria com a Mejud, que visa a apresentar a estrutura e o funcionamento do Judiciário a estudantes. A palestra foi ministrada pela servidora da Ascom Flávia Oliveira.

O processo do Cavalo Melado também foi o objeto do animado júri simulado ensaiado pelos estudantes. No embate entre os alunos, que se passaram por juiz, promotor, advogado e testemunhas, a discussão sobre a culpa ou inocência do animal acirrou os ânimos.

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A palestra do Conhecendo o Judiciário completou a programação da 17ª Semana Nacional dos Museus no TJMG