25/11/2016

Foto: Mejud

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Em janeiro de 1999, um incêndio de grandes proporções consumiu o interior da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Mariana, Minas Gerais. O templo acabara de passar por um processo de restauração e a tragédia provocou a perda quase total do acervo. Exemplos como esse foram mencionados na palestra “Incêndios em Bens Culturais Protegidos: Saberes Perdidos”, proferida pelo engenheiro eletricista do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) Leonardo Barreto de Oliveira. O evento, realizado no último dia 11 de novembro, no Salão Nobre do Palácio da Justiça Rodrigues Campos, integrou o Circuito de Seminários, promovido pela Memória do Judiciário Mineiro (Mejud) do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).

Leonardo Oliveira contou que as investigações das causas da tragédia apontaram para o possível contato de produtos inflamáveis utilizados no combate a cupins com fios e lâmpadas elétricas. “Esse caso demonstra uma imperícia técnica”, afirmou o engenheiro, lembrando que há várias décadas já existem produtos à prova de explosão utilizados em ambientes como o daquela igreja, onde não pode haver o risco da ocorrência de fagulhas. Outro incêndio marcante ocorreu na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário em Pirenópolis, Goiás, em 2002, provocado por velas acesas que atingiram tecidos e adereços. “É um exemplo de uso da edificação sem os cuidados necessários”, avaliou o engenheiro.

No começo de 2016, um incêndio na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, destruiu centenas de títulos do arquivo. De acordo com o palestrante, o nitrato de celulose dos rolos de filme é extremamente inflamável e perigoso. “Só não foi um desastre completo porque parte do acervo estava guardado em um galpão anexo ao prédio principal da Cinemateca. Mas isso não é o suficiente. Já existe tecnologia adequada para fazer a guarda desse material de forma mais segura”, declarou.

Relato histórico

Oliveira fez um relato histórico sobre a criação do Iphan na década de 1930 e apresentou considerações sobre os primeiros conjuntos urbanos e bens culturais protegidos. Como explicou, museus, arquivos e bibliotecas passaram a ocupar essas construções. “Sob o ponto de vista da prevenção e combate a incêndios, essas edificações apresentam inúmeros problemas”, disse. Segundo o engenheiro, fazer as alterações e adaptações necessárias sem provocar uma descaracterização arquitetônica é um dos maiores desafios dos gestores e exige soluções técnicas bastante criativas.

O palestrante explicou que a tipologia construtiva com excesso de material combustível, edificações antigas geminadas, dificuldades de uso ou mesmo incompatibilidade dos equipamentos modernos são algumas das principais razões que colocam em risco o patrimônio cultural brasileiro. Ele destacou também a falta de recursos para treinamento e capacitação específica e, principalmente, a ausência de planos de contingência e de intervenção que organizem as ações em caso de sinistro. “São bens culturais de valor excepcional, visto que são insubstituíveis”, alertou.

Oliveira defendeu, entre outras ações, a introdução de normas específicas de prevenção de incêndios para os bens culturais em todo o território nacional. A atualização tecnológica e conceitual dos equipamentos e procedimentos também faz parte das iniciativas propostas.

O profissional ressaltou, ainda, a importância do uso individual de extintores como medida emergencial, em função da velocidade do desenvolvimento do fogo. Segundo o engenheiro, desde o início da ignição até a inflamação generalizada, fenômeno definido como flash over, o tempo é bastante reduzido, pois os gases se inflamam e se alastram por todo o ambiente. Nesses casos, a temperatura varia de 20°C a 300ºC em apenas dois a cinco minutos. “Após esse estágio do incêndio só é possível realizar o controle de danos”, esclareceu.

Extintores modernos

Ao final da palestra, Oliveira apresentou as vantagens do uso de extintores de última geração. Segundo o engenheiro, o mercado já oferece produto com base em gás FE-36, que não causa alteração brusca de temperatura e não possui agentes corrosivos prejudiciais ao acervo, diferentemente dos modelos convencionais que utilizam água, pó químico e gás carbônico. Como demonstração, aplicou um jato do produto diretamente sobre um livro. Após alguns minutos, o papel estava seco, sem danos graves. Além disso, o cilindro do FE-36 é menor e pesa menos da metade dos demais, o que facilita o manuseio. A expectativa é que futuramente esse modelo possa fazer parte, rotineiramente, dos equipamentos das instituições culturais.

O Circuito de Seminários é realizado em parceria com o Grupo de Pesquisas e Estudos em Museologia – Arte – Estética na Tecnologia, Educação e Ciência (Musaetec) e a Escola de Ciência da Informação (ECI) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com o apoio da Assessoria de Comunicação Institucional (Ascom) do TJMG. As inscrições são abertas ao público em geral. Informações sobre a programação estão disponíveis pelo telefone (31) 3237-6224 ou pelo correio eletrônico mejud@tjmg.jus.br.

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