16/07/2013

Foto: Mejud

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A relação entre museu, comunidade e desenvolvimento local foi abordada na palestra “Museologia e os Processos Museológicos Comunitários”, proferida pela professora Yara Mattos, do Departamento de Museologia da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). O evento fez parte do circuito de seminários promovido pela Memória do Judiciário Mineiro (Mejud), do TJMG, em parceria com o Grupo de Pesquisas e Estudos em Museologia, Arte, Estética na Tecnologia, Educação e Ciência (Musaetec-ECI/UFMG). A professora, especialista em arqueologia e doutora em ciências pedagógicas, relatou também sua experiência no Ecomuseu da Serra de Ouro Preto.

Inicialmente, Yara Mattos fez um recorte temporal da dimensão pedagógica, política e social das instituições museológicas. Conforme explicou, nos anos de 1960 e 1970, diante das questões nacionalistas e ideológicas vigentes na Europa, com a desativação de várias fábricas, houve o reconhecimento da dimensão política dos museus. “A relação entre os processos museológicos comunitários começa na França com a crise do operariado”, disse.

Segundo a professora, como consequência dessa crise social, organismos mundiais de preservação do patrimônio deram início à discussão do sentido do homem frente aos objetos, assim como os especialistas ligados à museologia começaram a questionar a relação entre museu e comunidades. Com esses objetivos, importantes reuniões internacionais foram realizadas, entre elas, a Conferência-Geral de Grenoble (França), em 1971, a Mesa Redonda de Santiago do Chile, de 1972, e os encontros de Québec , em 1984, e Caracas , em 1992. Já no Brasil, ressaltou a professora, as experiências sobre museologia comunitária surgiram somente a partir de 1980.

Dedicada aos processos museológicos comunitários desde 2005, Yara Mattos lembrou que a museologia comunitária não privilegia o visitante e, sim, o morador local. Por isso, estatísticas de visitação não são tão importantes. “Está mais preocupada com a questão social”, disse.

Ecomuseu

Descreveu sua experiência na criação do Ecomuseu da Serra de Ouro Preto, cidade onde vive e trabalha há 27 anos. “Nossa experiência é muito específica, não temos prédio dedicado ao museu. Somos itinerantes, a nossa lógica é de território. Trabalhamos com a escola, pessoas da localidade e centros comunitários”, explicou. Desenvolvido nos bairros ligados às ruínas do morro da Queimada, por meio de um programa de extensão universitária da Ufop, o ecomuseu está localizado em um antigo arraial minerador do século 18, junto ao parque ecológico criado em 2008.

O atual espaço cultural foi montado em um bar cuja proprietária é uma líder comunitária atuante. A exposição é dedicada à memória tropeira. Segundo Yara Mattos, a comunidade abraçou o trabalho do museu. “Eles escolheram o título da exposição, o fotógrafo é de lá, e a montagem da museografia é toda compartilhada”, disse, valorizando a natureza participativa do processo. “É uma exposição muito singela, mas toda vivenciada.”

Yara Mattos também ressaltou a musealização temporária dos objetos do Ecomuseu da Serra de Ouro Preto. “Os tropeiros remanescentes nos emprestaram peças, e estas têm seu cunho utilitário. Estão em exposição e vão voltar para eles. O acervo do museu é inventariado nas casas das pessoas”, explicou.

Sobre a questão do museu como instrumento de desenvolvimento, a professora levantou algumas discussões ainda merecedoras de respostas, como a utilização do patrimônio na geração de renda, a capacitação da comunidade para desenvolvimento local e a gestão do patrimônio para a autossustentabilidade. E apresentou alguns projetos para a população que habita as áreas de memória do ciclo do ouro: inventário participativo, oficinas educativas para jovens em situação de risco e criação coletiva de núcleos de pesquisa, documentação, educação e comunicação. “Isso que caracteriza um trabalho de museologia comunitária”, sintetizou.

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