Maio/2009

Foto: Ascom/TJMG

chicadasilva_fato03-2009

Chica da Silva nasceu no arraial do Milho Verde, entre 1731 e 1735, era filha de Maria da Costa, escrava negra, e de Antônio Caetano de Sá, homem branco.

A partir de meados do século XIX, quando o diamantinense Joaquim Felício dos Santos escreveu sobre Chica da Silva, em suas Memórias do Distrito Diamantino, ela deixou de ser uma entre as muitas escravas que viveram em Minas Gerais no século XVIII e  tornou-se um mito.

Em decorrência do povoamento mineiro, onde a presença de mulheres – sobretudo das brancas – era escassa, o concubinato se generalizou e muitos senhores brancos alforriavam suas companheiras escravas, geralmente no leito de morte, e mais raramente, durante o período de vida.

No segundo semestre de 1753, pouco depois de chegar ao Tejuco e assumir suas funções, o desembargador da Coroa, João Fernandes de Oliveira, contratador dos diamantes, comprou de Manuel Pires Sardinha, por 800 mil réis, a escrava parda Chica. É provável que a tenha comprado com a intenção de tomá-la como companheira, pois passado alguns meses, a relação entre eles já existia e, em dezembro do mesmo ano, o jovem desembargador da Coroa registrou, na Vila do Príncipe, a carta de alforria de Chica.

O primeiro documento em que se encontra menção a Chica após sua alforria, datado de 1754, a registra como Francisca da Silva, parda forra. Naquela época, o sobrenome Silva, generalizadamente adotado no mundo português, indicava sem procedência ou origem definida.

Quanto ao sobrenome Oliveira, clara referência ao desembargador da Coroa João Fernandes de Oliveira, foi incorporado oficialmente apenas após o nascimento da primeira filha do casal, quando então Chica foi identificada no registro do batismo como Francisca da Silva de Oliveira, sugerindo um pacto informal entre os consortes.

“Durante dezessete anos, entre 1753 até 1770, ano em que João Fernandes voltou para Portugal, ele e Chica mantiveram um relacionamento estável, do qual nasceram treze filhos, nove meninas e quatro meninos. A média de um parto a cada treze meses faz desmoronar o mito da figura sensual e lasciva, devoradora de homens, ao qual Chica esteve sempre ligada. João Fernandes jamais teve dúvidas sobre a paternidade dos rebentos, pois os legitimou e lhes legou todo o seu patrimônio, apesar de em seu testamento demonstrar a esperança de que ainda pudesse ter um filho legítimo que o sucedesse.”.

Os filhos foram para Portugal, ao encontro de João Fernandes, e as filhas foram internadas no Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição de Monte alegre de Macaúbas, o melhor educandário da capitania, destinado às filhas da elite mineira.

Chica era analfabeta. No entanto, durante seu relacionamento com João Fernandes, teve acesso a uma cultura refinada. Frequentou saraus, peças de teatro e apresentações musicais, sobretudo óperas e também recebeu alguma educação formal, que lhe conferiu ao menos a capacidade de assinar seu nome e permitiu distanciar-se de seu passado de escrava e analfabeta.

Chica da Silva acumulou bens, transitou entre as irmandades, foi senhora de escravos, imitou padrões de comportamento da elite – “foi assim que se integrou à sociedade branca, à procura de reconhecimento e aceitação”.

Francisca da Silva de Oliveira morreu em 1796, no arraial do Tejuco, atual Diamantina. “O reconhecimento social que alcançara foi demonstrado em seu sepultamento, no corpo da igreja da Irmandade de São Francisco de Assis, que teoricamente congregava apenas a elite branca local”.